segunda-feira, 30 de novembro de 2009


Gosto de pessoas que tenham histórias absurdas para contar. Gosto dos que sabem o que é pecado porque experimentaram e não porque leram no evangelho. A teoria enfraquece qualquer experiência, antecede nas expectativas os possíveis sentimentos e, assim, os torna plastificados, esperados. Só o absurdo causa impacto, só o impacto nos torna vivos.
Não me importa sua literatura, me importa que me coloque, de fato, na parede. Com as mãos, com palavras, com olhares, você decide. Gosto de provocações, gosto dos perigos, quando trazem realmente alguma satisfação. Jogos desnecessários me entediam, rápido, muito rápido.
Não gosto de quem pede por posições sexuais. Tem que te fazer querer estar lá sem que você perceba. Não gosto de respeito por obrigação. Tem que ouvir durante aquele café pela manhã e se manifestar. Gosto dos que criticam porque entendem do que falam não porque compraram uma opinião, não porque ganharam um conceito embalado.
Se me disser que tem um castelo... eu caso. Não pela riqueza ou pela estética, mas reativar meu romantismo abandonado parece interessante.


Pra gente inventar
A hora e o jeito de acordar ou dormir
De um dia após o outro dia
De como entrar ou sair
De como passear entre o visto e o imprevisto
Entre o que pode fazer bem
E o que pode fazer mal
Entre viver o que se pode
E a cada dia querer mais.

terça-feira, 24 de novembro de 2009

e o mundo é perfeito


Após 12 horas de trabalho consegui pegar um ônibus para casa. Sozinha, em um banco duplo, tentava controlar meu cansaço, minha recente falta de paciência com o mundo. Estava ouvindo música de olhos fechados quando senti alguém sentar ao meu lado. Era uma mulher negra com o sorrido mais bonito que eu já vi. No colo uma criança e ao lado, em pé, estava o marido com outra criança também pequena. Levantei e ofereci meu lugar para ele e a garotinha que ele segurava sentarem.
Uma menina no banco em frente se ofereceu para segurar minha bolsa e eu recusei, sentindo o quanto ela me parecia leve. Eu prestava atenção no casal. Ele tratando ela tão bem, mesmo com as derrotas que pareciam estampadas no rosto dos dois. Segurando suas crianças como se isso fosse protegê-las de todo o mal. Eu acho que protege.
Uma senhora entrou alguns pontos depois. Equilibrava sacolas e guarda-chuva. Um garoto, alguns anos mais novo que eu, e de uma aparência bastante humilde levantou para que ela se sentasse. O motorista guiava com cautela, passando devagar por dentro das poças gigantes deixadas pela chuva da tarde e as pessoas relatavam os próprios problemas com bastante humor.
Comecei a pensar na burrice que era me incomodar com coisas tão pequenas. E em pouco tempo tudo pareceu tão calmo, tão simples, tão fácil de se levar. Essa humanidade que temos é o que ainda nos salva de nós mesmos. Atos pequenos, que nos são quase indiferentes e que podem mudar uma hora na vida de alguém.
Eu passei tanto tempo procurando alguém em quem colocar a culpa pelas minhas frustrações e, naquela meia hora, consegui consertar tudo dentro de mim mesma. Não eram os outros, eu estava quebrada.
É muito mais eficaz resistir quando a alma, o espírito e, principalmente, o coração estão em paz. É muito mais motivador lutar quando temos alguém para assegurar.
Caminhei devagar até em casa, sentindo que não queria o fim da noite. Sentindo saudades.

Eu acho que
tenho certeza daquilo que eu quero agora
daquilo que mando embora
daquilo que me demora
eu acho que tenho certeza daquilo que me conforma
daquilo que quero entender
e não acomodar com o que incomoda

E quando eu vou é quando eu acho que onde é que eu tô é pouco e tanto faz seja o que for, seja o que surge e some seja o que consome mais



quinta-feira, 19 de novembro de 2009


Desceu do ônibus escolar com uma idéia excelente. Foi devagar, procurando e coletando todas as joaninhas do caminho. As que encontrava guardava no vestido, florido, com cuidado para não apertar demais e sufocar as pobrezinhas. Chegou em casa com uma dúzia delas, ainda não era o bastante, mas já era o começo.
Correu em direção à varanda, onde o avô, concentrado, catava uma a uma as pulgas do vira-lata manchadinho. - Vô o que comem as joaninhas? Perguntou.
O velhinho, acostumado com as indagações, apertou os olhos para enxergar a pequena atravás do sol que refletia nos azulejos. - Insetos menores que ela, acredito.
Estava resolvido. Todos os dias repetia a mesma ação de recolher os bichinhos. Guardava-os no antigo aquário todo decorado com as pedrinhas que pegou dos vasos da mãe. Alimentava as joaninhas e ficava observando o número cada vez maior delas, até que povoaram por completo os espaços da caixa de vidro.
Uma tarde, com todo o cuidado, pegou o aquário, despediu-se dos pais e do avô e seguiu para a escola. Assim que chegou passou a procurá-la. Para a criança aquela era de longe a menina mais bonita do lugar. Sempre com seu batonzinho transparente na caixinha de morango. A coleguinha de classe para quem todos olhavam.
Encontrando-a com o olhar, caminhou até onde a garota estava e estendeu-lhe a casa das joaninhas. A menina que recebeu estranhou, olhou atravessado, pegou o aquário, agradeceu e saiu para brincar com outras crianças.
A menina que tratara os bichinhos ficou parada, imaginando o que poderia ter dado errado. Lembrou-se daquele dia. Enquanto desciam o escorregador do parquinho uma joaninha veio, voando de longe, pousou no colo da menina de batom. Os olhos da garota brilharam ao soltar um gritinho de satisfação.
'Teria dado certo se eu fosse a garota certa', pensou a menina, vestindo a mesma roupa florida.


sábado, 14 de novembro de 2009



-O que faz?
-Escrevo.
-Para quem?

Sobre certos assuntos não se pergunta. Não se especula. Estamos sempre provocando-nos. Queremos respostas, queremos que tentem nos atingir porque somos desconfiados e estamos tão apegados à essa idéia de maldade socializada que temos absoluta certeza de estarmos sendo prejudicados. Sim, eu tenho coisas a esconder, milhares delas, mas não, ao contrário do que você pensa não quero jogá-las na sua cara. Porque eu admito que também tenho meus defeitos e não gosto deles aparecendo a todo instante. Não tenho razão para te mostrar os teus e, na verdade, quem disse que eu escrevia algo para ser lido por você? Embora eu saiba que tudo que vaga pode encontrar um ponto qualquer.
Sobre certos assuntos não se especula porque eles podem te atingir e não é o que eu queria, mesmo. Eu só preciso me livrar das coisas que estão encravadas na minha alma e que não param de morder um pedacinho por dia.

Será que se eu pensar com muita força em alguém essa pessoa aparece? Será que ao menos essa força fará lembrar que eu existo? Odeio essa idéia de arrancarmos de nós tudo o que o outro deixou quando se vai. Eu quero guardar porque já me fez bem, mas enquanto está aqui não pára de corroer. Meu desespero só é maior em pensar que eu desapareci completamente de todos vocês.


Com a sua pele sagrada
A sua boca sagrada
E a sua vida no chão

quarta-feira, 21 de outubro de 2009


Somos realmente acomodados, enquanto seres que têm essa necessidade de se relacionar com outros seres da mesma espécie. Nesta inércia estão embutidos todos os medos de uma sociedade disposta a te provar que você não é ninguém sem alguém. Assim você pega a primeira oportunidade, se agarra e se incomoda tentando também acomodá-la.
As pessoas começam a achar normal o fato de acordarem sempre com a mesma ressaca e nada estar modificado. Em levantar da cama com os olhos marejados, sacudir a cabeça, abrir um falso sorriso e fingir que isso tudo é normal. Em apanhar segundo após segundo e realmente acreditar que tudo é experiência e que merdas aparecem para nos ajudar a crescer.
Mas em uma bela terça, às 15h, tudo desmorona. Fatos que já eram conhecidos, mas estavam tão escondidos explodem frente aos seus olhos e você se obriga a encarar o próprio fracasso.
Tem o período da dor. A época em que você tem certeza de que é tudo culpa sua, mas ainda assim busca descobrir os problemas causados pelo outro. Isso demora, mais do que gostaríamos.
Passada a reclusão, de repente, aquela mesma ressaca anterior pára de te incomodar e uma sensação de 'vamos repetir' toma conta. Não só de você. Ao abrir os olhos de manhã, se acompanhado, você abraça o outro não porque é o comum, mas sabe o quanto precisa sentir aquele corpo. Se sozinho, você passa a contar as horas para o próximo encontro.
Já não existe preocupação em caminhar na chuva e estragar o cabelo. É divertido olhar para o lado e ver o sorriso no rosto de quem te acompanha.
Esperar não causa mais tédio, ao contrário, produz ansiedade. Um frio na barriga ao olhar qualquer pessoa que lembre quem é aguardado.
Pequenos gestos, olhares de canto, meios sorrisos. É impossível retratar o quanto têm me ajudado e o quanto sua presença no meu mundo tem me feito ficar abobalhada. Sem querer saber que horas são e sem me importar com quem não liga mais para mim. Estou trocando todos os outros pela certeza transmitida nas suas palavras. Eu nunca consegui isso antes.
Nunca terei coragem de te pedir que fique eternamente, não posso pedir nem pra mim mesma que te queira para sempre. Mas, enquanto nossas respirações pararem por estarmos tão juntas, fique comigo... ao menos enquanto valer a pena.


Well here I am on your doorstep again
I let the winds of time pass through my life
Maybe there's an end
Who the fuck protects you?
Who the fuck is going to resurrect you?
It's a sorrowed truth the truth is not a lie
Come on up baby
Dont go and burn in the fire



segunda-feira, 19 de outubro de 2009




"Que importa é o que te quebra em duas cidades
Que importa é o que te deixa tão transfuso
Que importa é o que te faz rachar as velas
Que importa é o que te faz abrir os olhos de manhã"



Já é de manhã!
(*Vanguart - Para abrir os olhos)

quarta-feira, 14 de outubro de 2009


Acordei armada de meus mais pesados palavrões e das palavrinhas mais sádicas que um ser pode utilizar como meio de se proteger. E que proteção é essa? Auto ataque!

Quero fugir do contato humano, mas não tenho para onde correr, onde refugiar-me, onde esconder-me. Já escreveram que somos responsáveis por quem cativamos e nunca encontro quem fica sendo responsável por mim.

Quem vai arrumar minha mesa cheia de papéis espalhados, me obrigar a engolir um gole de café, me fazer arrumar o cabelo, as unhas e parar de usar minhas roupas de dormir? Nem minha cama aguenta me ver com minhas roupas de dormir. E eu não sei, por hoje, ser de outra forma.

Uma crise egoísta aqui, uma falta de atenção dali e, principalmente, uma banalidade qualquer. Tudo me colocando nesse estado agressivo onde cada palavra é uma garfada engolida. Nem meu estômago aguenta com tanta porrada.

Não quero ter que responder idiotices burocráticas, não quero oferecer explicações desnecessárias, não quero rir de tanta piadinha sem graça, mas se eu me trancar no meu quarto fico surtada. Não são os outros que eu não aguento mais, é o fato de não poder sair nem por um segundo de mim mesma. É o fato de eu não saber fazer as coisas que admiro. É o fato de não conseguir fazer felizes as pessoas que gostam de mim.

Eu nunca aceitei bem esse lance das pessoas gostarem de mim e continuo evitando gostar delas porque sempre tenho certeza de que vou quebrar a cara. Qual a ironia em tudo isso? Sou eu quem está sempre quebrando a cara de pessoas que não pedem nada para estarem ao meu lado pelo simples fato de não acreditar que posso realizá-las. Deveria deixar elas decidirem se as completo ou não... deveriam me trancar em algum lugar para eu parar de machucá-las.




É só mais um filme sobre nós...

Ninguém vê nem se importa

só não posso esquecer

Não há hora melhor que agora

O mundo esta implodindo lá fora...quer deixar para um próxima?