terça-feira, 10 de maio de 2011


Notas dispersas. Móveis espalhados ao acaso. Vento dando de cara contra a parede. Luzes fragmentadas. Apenas restos de falas. As que consigo lembrar. Promessas. Por que perder seu tempo? Tua voz. Minha cabeça rodando. Recordações dos teus versos, dos teus gemidos, daquilo que pareceu, por um instante, ser o que eu viria a amar em você. Desperdício de intenções. Sobra de descuidos e inverdades. Tua camisa, emprestada em um dia de chuva. Jogada ao acaso sobre minha televisão. Não toco. Não consigo encostar. Te mando pelo correio? Rasgo em pedaços? Sem acessos de fúria. Teu tom, teu som, tuas marcas no meu violão. Apago fechando os olhos.
Noites despertas. Fantasmas nas sombras. Arrepios. Minha pele sentindo falta do teu calor. Meu estômago amargando teu excesso de mentiras. Meu corpo brigando entre te expulsar e sentir um resto de bem-querer.
Campainha soando. Torcendo para ser outra pessoa. Entristecendo por não ser você. Disse que ia ligar. Eu pedi para deixar pra lá. Você acreditou em mim quando gritei não te querer mais.


"coração, ainda vem me perguntar - que aconteceu?"

segunda-feira, 2 de maio de 2011


Isso é entre meu pensamento e minha alma. Você só faz acreditar que ainda pode construir moradia por aqui, mas isso trata-se das minhas estruturas, sobre o que eu destruí e também sobre o terreno onde eu fiz reconstruir. É um segundo término, pode ser. Mas é um ponto final entre meu coração e o que eu acreditei que você pudesse ser para mim. Entre nós existe um passado distante demais para apalparmos. Teu corpo foi e tuas idéias nunca criaram raízes por aqui. Eu tenho essa barreira contra a maioria das pessoas e escolho muito bem de quem sugo, raramente sendo daqueles que coloco na minha cama.
Você foi, passou, demos fim, lembra? Isso não tem nada a ver com você. Isso é um segundo e diferente final. Meu rompimento com as minhas ilusões a respeito do que poderíamos ter sido. Sou eu dissolvendo fantasias que alimentei até virarem realidade, sou eu reinventando. Não quero sua intromissão nesse segundo desfecho. Porque você ainda não entendeu que isso não é sobre você, ainda que teu ego não aceite. Sou eu terminando com o que eu criei e quis moldar em você. Você foi só o que eu quis que fosse. Um reflexo meu que fiz para tentar amar, mas nem de mim deixo de desgostar. Nem me namorando deixo de amargar desilusões.


"O nosso som pausou..."

terça-feira, 26 de abril de 2011


Se tu souber cantar outros versos quero que passe aqui e me eduque porque eu só tenho coisas intocáveis para te oferecer. Eu só posso deixar meu gosto na tua boca e minha risada instável nos teus ouvidos. Se tiver uma música bonita que eu desconheça toque na nossa praça. Porque lá as crianças que fingimos serem nossos filhos também poderão escutar. Sempre que eu aprender palavras novas poderemos incorporar nas nossas piadas, quando morrermos no colo um do outro, nas horas mais impróprias e também quando brigarmos. Porque nossa discussão foi tão primordial que virou nossa melhor história. Eu quero evitar que pegue meus vícios de gente velha, mas vou fazer você assistir àqueles filmes que filtrei entre os melhores. Eu preciso que me faça entender a possibilidade de traçar linhas que contam teu olhar. Mesmo que teu melhor desenho tenha sido feito com os restos da comida no prato. Quero que repita outras mil vezes que preciso ter calma quando os carros jogarem água de chuva em mim e ainda deveria ficar feliz quando chove assim.
Te quero presente, fazendo eu não esquecer por nenhum momento os trejeitos de minha gente, porque você se dedica a se apaixonar pelas minhas manias e pela forma como pronuncio palavras espaçadas quando irritada. Eu preciso que continue fotografando tuas idéias Gasparianas porque eu me expando fazendo as poses que me pede. Que tua arte transborde no meu gosto incerto, porque eu quero que leve de mim todo um universo, mas nada que possa de fato tocar.


"Foi só piscar o olho e eu me apaixonei, enfim...
no meio da fumaça ele também gostou de mim"

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010




Há um todo que não significa muita coisa, mas que torna tudo confortável. Ainda procuro, sem muito esforço, em pensamento. Em vontades me consumo. Minha vida não vai funcionar se eu tiver uma cafeteira ao lado da cama, mas eu vou poder servir café aos que eu amo com maior facilidade. Um pequeno refrigerador só para sentir a alegria de tê-lo sempre abastecido das bebidas que gosto. Mudar a cor dos cabelos está nos planos, sempre esteve, mas nenhuma inspiração me visitou. Tentar uma nova profissão, da qual vou reclamar todos os dias quando chegar em casa, mas sem falar realmente sério. Encontrar um toca-discos que realmente funcione e uma bandeira dos Ramones para me lembrar de nunca envelhecer. Conseguir manter meus livros organizados por ordem alfabética de sobrenomes. Sentir real vontade de parar de fumar. Sentar em uma roda de samba que traga algum momento de paz sem necessidade de motivos. Caminhar em ruas preenchidas com corredores de árvores. Cultivar qualquer novo ideal. Descobrir ritmos escondidos em pessoas desconhecidas. Permitir a aproximação de alguém outra vez. Ter uma câmera melhor para presentear quem se interessa em visões.

Que esse futuro próximo me reserve o mínimo. Feliz ano novo.

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010





Não era para acontecer como passou. Você nem era para ter feito alguma diferença significativa. Era para ser um amigo desses com quem se pára de falar e quando volta já não faz sentido. E matar o tempo era o bastante.
Então eu descobri que gostava desse teu humor ácido. Que teu gosto musical era impecável e que a tua sutileza me encantava. Você nunca deve ter reparado em quanto ela é apurada, mas isso me prendeu desde o início. E eu quis te ver de perto.
Descobri que você fala sem parar e que isso é divertido. Que teu sotaque é mais forte que o meu, mesmo que seja eu vivendo no interior. Que seu sorriso é fascinante e os teus olhos não abrem. Que você é baixinho ou eu sou alta. Que você bebe cerveja boa. Que eu não lembro de muita coisa, mas seu perfume me acompanhou por dias. Que seu colo é bom e quente. Que agora a tua cidade tem um motivo a mais para ser bonita em mim. Que possivelmente detesta quando eu falo em signos e deve acreditar que eu sigo previsões astrológicas.
Que a cada vez que tirei sua camiseta descobri uma tatuagem nova e ainda me pergunto se tem mais alguma escondida. Que você tem um casaco legal e que seu beijo é bom. Eu voltei para casa largando alguma coisa para trás, nem sei se você guardou.
E sei que você está longe, não apenas fisicamente. Que você tem esse jeito seguro, mas tem tantos medos e desvios interiores quanto eu. Que provavelmente não sejamos nada além do que fomos em um ou dois finais de semana, mas eu torço por você.
Talvez eu nem passe mais pela sua cabeça, mas às vezes eu lembro de ti e ainda me sinto próxima porque quero o seu bem. Quero um dia ver que chegou aonde queria chegar, seja em qualquer lugar. Quero acreditar que tudo na sua vida vai funcionar, mas só se for passando a perna na roda.

"Quando a noite apavora e eu não conseguia dormir.
Você contava as mesmas histórias e eu não me cansava de ouvir"

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010




Concentração agora só adquirida reunindo-se muito esforço. Mudo de disco, dezenas de vezes, nada se encaixa. Acendo o cigarro e lembro da decisão de não mais citá-lo. Sempre os mesmos livros me observando daquela prateleira quebrada. É romântico exaltar defeitos?
Não queria me sentir obrigada a deixar de gostar de você. Queria que tivesse sido só um mal entendido e que você tivesse me explicado isso. Eu sei o que aconteceu, mas enquanto não ouço seus motivos minha mente desajustada não para de me enrolar com piadas. Ainda que eu tenha criado pré-opiniões, não sei nada do que se passou. Sei o que eu vi, o que senti, o que toquei, mas as entrelinhas são sempre tortas demais para mim e lê-las não se aprende decorando a teoria.
Ninguém achou graça.

I've been lost
I've been found
but I don't feel down

quarta-feira, 17 de novembro de 2010



Sou do tipo que fica feliz ao receber atenção de alguém que admira. Que gosta de elogios vindos de quem realmente importa. Que gosta dos presentes, mas realmente prefere a intenção. Que sente falta quando não recebe cuidados, que quer ser a razão dos telefonemas de alguém e que acha importante viver de pequenas atitudes. Que prefere desenhos antigos, mesmo isso sendo clichê. Que aproveita o inverno, que bebe café puro, que come rápido, que está sempre atrasada, mas e quem não está? Que às vezes usa fones de ouvido mesmo sem escutar nada apenas para
afastar desconhecidos e às vezes acha confortável conhecer novas histórias. Que antes de colocar o cinto liga o som do carro. Que desliga de tudo quando lê. Que gosta de sentar no chão para folhear o jornal, que gosta de poucas companhias ao frequentar o cinema, que gosta de escolher sempre o mesmo sabor de sorvete. Que ainda tenta entender a razão de enjoarmos do outro, mesmo quando este nos parecia insubstituível. Que pretende um dia aprender a cozinhar. Que tem certeza de que as pessoas não mudam, mas insiste em acreditar.


"I never promised you a rose garden"