
Depois de desistir de outros três, aquele primeiro dia de curso não era novidade. Sentada em uma das arranhadas carteiras eu ia analisando uma por uma as companhias que poderiam durar por quatro anos ou quatro semanas, como nos dois anos anteriores.
A análise partia de uma queda pelo ser humano. Gostava de tentar adivinhar a voz, o cheiro, pensamentos e, é claro, a pegada de cada pessoa que se aproximava sem antes estabelecer contato.
Em meio à distração da qual me ocupava ela entrou. Senti-me incomodada, desviei o olhar, mas como essas coisas não se explicam ela escolheu justamente o lugar ao lado e atirando um cumprimento entre os lábios pintados de café. Conhecemos-nos e em poucos dias sentíamos-nos embriagadas pelos gostos uma da outra. Mais que as conversas o que me afetava eram os sorrisos, o tom prateado dos cabelos e aquela voz, diferente de todas as que ouvi de tantas mulheres e homens com quem eu estive. Eu não era impressionável, mas, antes de perceber os alarmes, estava beijando aqueles lábios marrons.
Passei todo um final de semana relembrando os últimos acontecimentos e esperando pelo próximo encontro, queria dizer-lhe que estava louca, apaixonada, arregaçada de tanto querer e não via a hora de estarmos juntas e, quando cheguei, a vi despedir-se de um cara, abraçar o cara e... beijar o cara.
O que para mim era a personificação de um amor à primeira vista para ela parecia apenas mais um rolo. Doeu e não consegui voltar. Meses se passaram e continuou doendo. Parei de sair, larguei os estudos, ignorei os amigos e deixei minha admiração pelo outro.
Certo dia, sentada na padaria, ouvi alguém me chamar. A mesma voz, diferente de tudo que havia escutado, e o mesmo batom café. Segurei para não cair, chorar e implorar nada ali, mas não resisti em levantar e beijá-la. Fomos ao banheiro, ali mesmo, eu já estava esperando há muito tempo. Meu coração batia mais que no dia em que enterrei o cachorro da família e arrancando suas roupas com os dentes, sim, com os dentes, de repente senti algo que não condizia com o que eu via, olhando fixamente para seus peitos como estava. Não consegui acreditar.
- Um pênis? Porra, um travesti?
Virei as costas extremamente decepcionada e pensando em dizer que estraguei anos de minha vida, que eu quis morrer, que tive meu maior amor, por uma mulher que não me agradava, que não fazia o meu gênero!